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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

IL DOLCE FAR NIENTE OU A APATIA DA GERAÇÃO NEM-NEM


“Il dolce far niente” constitui uma expressão italiana empregada para descrever aquele prazer indolente proporcionado pela sensação de não fazer nada despreocupadamente. Esta expressão designa o comportamento de uma parcela crescente da população juvenil (14-24) e que desde o início dos anos 2000 vem sendo caracterizada como “generation neets”: not employment, education or training. Este fenômeno sociocultural foi inicialmente identificado na Inglaterra, e mereceu até mesmo um relatório da House of Commons do Children, Schools and Families Committe, intitulado: Young people, not education, employment or training. Ainda não existe consenso sobre a adequação dessa expressão, na medida em que certos especialistas acreditam que seja estigmatizante e depreciativa, chegando mesmo a propor outros acrônimos como, por exemplo, “seeking education, employment and training” – SEET ou “people with untapped potential” – PWUPs, que se referem ao potencial inexplorado, ou mesmo, desperdiçado. Porém, independente do viés conceitual, é inegável a existência de um mal estar geracional que vem se alastrando mundialmente e que tem sido objeto de inúmeros debates na Espanha, Portugal, Itália, Japão, Argentina, México, e que vem despertando interesse crescente no Brasil.

Muito embora o fenômeno Nem-Nem (nem quer trabalhar e nem quer estudar) possa apresentar variações contextuais, que dependem sempre das classes sociais, do gênero, da etnia, das expectativas do grupo familiar de que fazem parte, ele parece apresentar algumas características comuns que merecem ser consideradas sociologicamente. Os jovens da Geração Nem-Nem não são necessariamente inativos economicamente ou completamente alheios a importância da qualificação; muitas vezes os jovens Nem-Nem possuem ocupação profissional e se encontram inseridos em cursos de formação, mas por razões diversas são incapazes de motivar-se, firmar compromissos e se tornar independentes de seus vínculos familiares. Além disso, os jovens Nem-Nem sentem ou percebem que estão sendo progressivamente excluídos de muitas atividades sociais decisivas para seu futuro, porém permanecem por meses, em alguns casos por anos, absorvidos em seus interesses pessoais como, por exemplo, a internet, as redes sociais, os vídeos games, etc. A conseqüência desse processo tem sido o aparecimento de um número crescente de jovens pragmáticos, acomodados e refratários a compromissos coletivos e, portanto, incapazes de abrir novos caminhos sociais. Esta situação é curiosamente paradoxal, pois, ao mesmo tempo em que aumentam as liberdades individuais, os jovens Nem-Nem não conseguem escolher; mais precisamente: quanto maiores são as oportunidades de escolha, menor a capacidade de escolher.

As explicações para esse processo são multivariadas, mas todas parecem reforçar a hipótese da individualização introduzida por Ulrich Beck em Risk Society. Para Beck a individualização compreende um processo no qual o individuo passa a ser o ponto de referência central para si mesmo e para a sociedade, tornando-se a unidade central de toda vida social. A individualização esta associada ao que Beck denomina de processo de “modernização reflexiva”, no qual os processos constituintes da modernidade como, por exemplo, racionalização tecnológica, vínculos sociais e a biografia normal, mudanças de estilos de vida, estruturas de poder e influência, normas de conhecimentos e produção científica, etc., passam a atuar sobre si mesma de forma reflexiva. Neste contexto os indivíduos, progressivamente, enquanto agentes da ação, tornam-se responsáveis de suas próprias biografias, que são estabelecidas por meio de suas próprias escolhas. Isto significa, portanto, que no processo de modernização reflexiva os indivíduos são forçados a escolher a forma de espiritualidade, a profissão, o gênero, a sexualidade, etc. e a conseqüência desse processo é que a individualização acaba por ampliar e limitar as possibilidades de ação dos indivíduos, tornando-se, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um risco. 


O lado irônico e, ao mesmo tempo, perverso deste fenômeno é que os chamados “filhos da liberdade” tornaram-se os “prisioneiros da apatia”. Como assinala Beck, a dissolução das formas tradicionais de autoridade (dimensão de libertação) associada a perda das formas de segurança (dimensão de desmistificação), não cria formas de inserção social (dimensão de controle). Nesse sentido, o drama da Geração Nem-Nem parece surgir da inexistência de meios reflexivos para se integrar a uma sociedade que se destradicionaliza e individualiza progressivamente. Por um lado, como os jovens Nem-Nem não podem recorrer a nenhum modelo de vida pré-estabelecido, tornam-se conservadores de uma realidade que existe cada vez menos; por outro, os projetos individuais e a idéia de mobilidade social passa ser moldada pelas coações dos meios de comunicação de massa. Parecem sempre em dúvida diante da escolha da formação a seguir e da profissão a escolher, tornando incerto também o fato de que a dedicação, o compromisso, o estudo, o título possam fornecer a correspondente compensação profissional e social. Portanto, para os jovens Nem-Nem não parece ser emocionalmente vantajoso comprometer-se com um projeto de vida definido, por  acreditarem que ele estaría sujeito as transformações sociais, e optam por flexibilizar os desejos e compromissos. 

 No Brasil esta questão reflete a assimetria típica que caracteriza nossa formação social, configurando um cenário ambivalente que opõem dois grupos de jovens. Nos estratos sociais superiores e urbanos temos o padrão Nem-Nem típico (Nem querem trabalhar, nem querem estudar); já nos estratos sociais menos favorecidos e rurais temos uma outra espécie de Nem-Nem atípico (Nem consegue trabalhar, nem consegue estudar), devido a sua condição social. Assim, muito embora  os dois grupos de jovens não consigam organizar e planejar suas biografias adequadamente, os motivos que justificam são diferentes. O interesse dessa problemática reside nos efeitos da apatía da Geração Nem-Nem sobre as formas de produção, transmissão e extensão do conhecimento na universidade.  

sábado, 29 de janeiro de 2011

Vivendo na vulnerábilidade, agindo nos desastres

1 - O paradoxo dos desastres
Os desastres comportam um paradoxo intrigante: a vulnerabilidade é produzida socialmente pelas formas de couapação do espaço e utilização dos recursos naturais, mas permanece ignorada pela sociedade que só age sobre as variáveis naturais. Porque apesar de produzidos socialmente os desastres permancem desconhecidos sociedade? A resposta é simples: não é a chuva que produz o desastre; o desastre é incubado socialmente pelas formas de reprodução social. Os desastres não são fenômenos naturais, pois tempestades ou chuvas somente se convertem em desastres quando impactam uma população vulnerável. A freqüência e intensidade dos desastres constitui, portanto, o produto da correlação de dois conjuntos de variáveis: 1) o evento (geofísico, meteorológico, hidrológico, etc.); 2) o impacto (habilidade da população para se preparar e se recuperar).


Os desastres constituem um problema de desenvolvimento socioeconômico. Por muito tempo acreditou-se que os desastres constituíssem um problema para o desenvolvimento de uma região: certos fenômenos naturais como, por exemplo, secas, chuvas, terremotos, etc. poderiam obstruir o desenvolvimento de uma região. Mais recentemente, contudo, percebeu-se que na maior parte dos casos os desastres constituem um problema produzido pelo próprio desenvolvimento: certos padrões de desenvolvimento socioeconômico acabam sobrecarregando a capacidade de suporte do ambiente natural. Essa mudança de perspectiva assinala que os desastres deixaram de ser vistos como fenômenos exteriores à sociedade, e passaram a ser concebidos como um produto do padrão de interação sociedade/natureza, mediado pelas estratégias de desenvolvimento socioeconômico.

2 - Novas respostas para velhas questões
Do ponto de vista analítico, um Desastre (D) constitui o resultado da correlação entre o risco de ocorrência de um Evento (E), mais a Vulnerabilidade (V) da população: D = E ↔ V. Isto significa que é necessário o conhecimento tanto das variáveis naturais como, por exemplo, informações meteorológicas, hidrológicas, sísmicas, geológicas, etc., quanto das variáveis sociais relativas ao tipo de organização da população em termos de acessos aos recursos e preparação para ocorrência de um evento. O que vem se observando nos estudos sobre desastres nos últimos anos é a existência de uma assimetria de conhecimento entre estes dois conjuntos de variáveis. Temos muito conhecimento sobre os fatores naturais que incidem sobre os desastres e muito pouco sobre as variáveis sociais. A conseqüência mais evidente desta assimetria é que a maior parte das medidas de confrontação dos desastres incide sobre as variáveis naturais em detrimento das variáveis sociais.

Como podemos notar, a dificuldade de compreender e agir adequadamente sobre os desastres resulta da combinação, sempre dinâmica, da mediação estabelecida pelo processo de desenvolvimento socioeconômico entre a sociedade e natureza. Se um desastre constitui a relação entre um evento físico e a vulnerabilidade da população, podemos afirmar que sua ocorrência compreende a dissolução da rede sociotécnica que associa simbólica e materialmente o mundo social ao mundo natural. Isto quer dizer que cada região ou cada sociolocalização representa simbolicamente (valores) e manipula tecnicamente (processo produtivo) a sociedade e a natureza, estabelecendo configurações específicas da paisagem; mais precisamente, ocupando o espaço e utilizando os recursos de forma específica, formando estruturas urbanas e rurais próprias. Uma barragem, por exemplo, constitui uma forma de adequar o mundo natural ao mundo social variando de significado historicamente de acordo com sua utilização social. Assim, na maior parte dos casos, a atuação sobre as variáveis naturais em detrimento das variáveis sociais se explica pela necessidade de sustentar o padrão de desenvolvimento da região.

3 - Subsídios para confrontação dos desastres
As conseqüências desta mudança de perspectiva representaram uma profunda modificação na definição de estratégias de confrontação dos desastres. O ponto central da análise reside na investigação da vulnerabilidade da população. Nesse sentido, argumenta-se que os desastres obedecem a um “princípio de continuidade”: as condições observadas no período pósimpacto constituem o produto das condições observadas no período préimpacto. Assim, se no Tempo-1 (préimpacto) temos uma situação de vulnerabilidade, esta situação se converte em destruição no Tempo-2 (pósimpacto). Portanto, argumenta-se que quanto mais vulnerável encontra-se uma população no T-1, maior a destruição observada no T-2. Isto significa que a freqüência e magnitude dos impactos dos desastres constituem uma propriedade da capacidade da sociedade de conceber cognitivamente e agir consistentemente sobre o problema em termos de obras que procurem mitigar e prepare a população para a ocorrência do evento. Portanto, podemos dizer que a vulnerabilidade de uma população constitui o resultado de seu padrão de desenvolvimento, pois quanto mais o padrão de desenvolvimento sobrecarregar a capacidade de suporte ambiental, maior são os riscos. Logo, os desastres constituem a materialização da vulnerabilidade; isto significa que a vulnerabilidade exprime a capacidade de absorção de um impacto, que por sua vez depende sempre das condições sociotécnicas da população.
Ao mesmo tempo em se aperfeiçoam os dispositivos de controle

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

CRÔNICA DAS REMINISCÊNCIAS PERDIDAS

Hoje pela manha, quando levava minha filha para o colégio, fui tomado por uma sensação, particularmente, estranha. Toda manhã quando entramos no carro, depois de nossa disputa habitual sobre que musica tocar, Natalia costuma ligar o rádio, e esta de manhã não foi diferente. Porém, hoje, curiosamente, ela me pergunta: pai que musica é essa? Imediatamente respondo: Ah Natália, esta é uma música do grupo alemão Kraftwerk... depois, no final, descobrimos que a tal música se chamava Das Model, e em seguida, complementei lembrando que a mãe dela gostava muito desta música. Neste exato momento fui levado não a época em que ouvi pela primeira vez Das Model, na minha adolescência, mas, é claro, ao período quando ainda vivia junto com Cecile e havíamos redescoberto juntos que gostávamos da mesma música. Naquela época, lembro o quanto falamos de nossa adolescência, afinal, tão diferentes, porém que cada um, a sua própria maneira, havia vivido o que vivemos, e todas essas coisas que sempre afloram arrepiadamente em momentos como esses. Lembro que este fato me levou a comprar o famoso disco Die Mensch-Maschine, como que acreditando que ouvindo aquela música eu pudesse guardar aquela sensação vivida na minha adolescência. O curioso de toda essa história é que não consigo mais me lembrar das impressões que senti naquela época quando ouvi esta música a respeito de minha adolescência passada no final da década de setenta em Rio dos Cedros. Por que quando ouvi Das Model naquela época fui levado a Rio dos Cedros e quando ouvi Das Model essa manha fui levado a Florianópolis do final da década de noventa? Por que não tenho mais acesso à minha adolescência com Das Model? Nesse momento senti uma espécie de nostalgia do tempo nostálgico; ou melhor, senti uma nostalgia nostálgica, como se a nostalgia da adolescência tivesse se perdido também no passado. Senti como se Das Model deixasse de ser meu bolinho madaleine por meio do qual eu poderia reviver o tempo perdido, porque para chegar à adolescência eu precisaria passar sempre pela experiência do tempo redivivo naquela época vivida junto a Cecile.




mnemosine
Estranhos são os caminhos da memória, não? Sempre tão evasivos, sempre tão seletivos, sempre tão traiçoeiros... As reminiscências estão sempre dentro de nós, mas só podem ser sacadas quando são ativadas emocionalmente. Uma imagem, um cheiro, ou aquela música tocando no rádio pela manhã... e, repentinamente, uma experiência é extraída do sedimento de acontecimentos cotidianamente depositados no passado e, quando aflora, é atualizada. As emoções parecem ser a porta do passado por meio do qual iluminamos o tempo perdido. Na lembrança, ainda que se possa sentir um grau de vivacidade mais fraco do que a experiência ou da impressão presente, acreditamos que já passamos por aquela experiência passada de que nos recordamos no momento presente. A reminiscência constitui as ideias que temos da sensação que recordamos dos momentos vividos no passado. Somente quando o presente é preenchido pela memória é que podemos confiar nos sentimentos, e é por isso que a dor ou a felicidade só fazem sentido quando são atualizadas por algum tipo de lembrança que preenche o presente. Ao evocar a memória de um acontecimento retiramos a lembrança de uma situação e colocamos em outra. Na verdade são as lembranças que nos tornam humanos, seja lá o que isso possa significar.

É esta vertigem do vazio que move a luta dos replicantes de Blade Runner (1986). Os replicantes são os robôs Nexus 6 do filme realizado por Ridley Scott, baseado no livro Do Androids Dream of Eletric Sheep de Phillip K. Dick, 1968. Projetados para se tornarem escravos do homem nas colonizações de outros planetas, possuíam aptidões, força física, raciocínio e inteligência superiores aos seres humanos, porém foram concebidos para durar apenas quatro anos. Apesar disso, os replicantes acabaram desenvolvendo desejos e inquietudes típicas dos seres humanos, e após a realização de um motim sangrento para retornar à Terra, foram declarados ilegais e condenados a morte. Policiais especiais, os blade runners, tinham ordens de atirar para matar qualquer replicante, o que era chamado de “remoção”. A busca desesperada por mais tempo de vida dos replicantes, na verdade, encontra-se imersa na busca de sua identidade inexistente; não possuem memória. Este é o caso de Raquel, uma andróide experimental que acredita ser um humano porque não sabe que teve implantada sua memória, mas que progressivamente passa a desconfiar de sua identidade, pois suas memórias da infância são somente visuais dos acontecimentos passados, mas sem a sensação de tê-los vivido. O drama de Raquel consiste no fato de que mesmo que se lembre de certos acontecimentos, a memória visual não parece ter o acompanhamento do mínimo grau de vivacidade ou de sensação de ter experienciado esses acontecimentos. É por isso que no momento mais dramático do filme, o replicante Roy traduz a importância da questão da memória quando, numa cena magistral da frugalidade, diz: “I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the darkness at Tan Hauser Gate. All those moments will be lost in time like tears in rain. Time to die”. A angústia da experiência singular de vida dos replicantes revela que a essência da identidade é a memória e a memória se tem revivendo a história da vida. Era exatamente por isto que os replicantes queriam desesperadamente mais vida.



Quem recorda supõe que já vivenciou aquilo que se lembra. Acreditamos que ao lembrar percebemos naquilo que se percebe algo que já foi percebido ou de que tem a sensação de já ter sentido. A memória constitui, portanto, uma interligação entre a experiência vivenciada e necessidade de evocá-la, o movimento que leva o passado para o presente. O que terei percebido sobre mim quando ouvi Das Model esta manhã? Que terei reconhecido em mim hoje pela manhã? Talvez a memória dos erros do passado... Talvez a desconfiança sobre o futuro... Talvez a crença de que não exista redenção longe das imperfeições... Por isso hoje pela manhã quando Natalia me fez aquela pergunta, toda aquela perplexidade sobre a memória e depois a melancolia que alimenta o meu desespero...


Mas e se a memória não for mera atenção e percepção? E se o chamado da memória não for apenas reviver, mas antes refazer, reconstituir, reinventar o passado? Se lembrar for produzir o passado? À noite fomos ao Desfile da Oktoberfest, e Natália, que nunca tinha visto, se divertiu muito e me perguntou: você não gosta do desfile? E eu respondi: são apenas pessoas fingindo ser algo que nunca fomos... E concluí dizendo: Natália, esses são alemães de mentirinha. Aqui a memória constitui uma experiência social. Um indivíduo quando sensibilizado por um acontecimento utiliza as referências de sua memória social e de outros sujeitos para entender o que está acontecendo. A minha memória existe sempre a partir de uma memória coletiva, na medida em que as lembranças são constituídas num contexto social. A origem de várias idéias, sensações, sentimentos que frequentemente atribuímos a nós são, na verdade, inspiradas no contexto social. É por isso que a memória pode ser simulada, e até mesmo criada com base em representações do passado assentadas na percepção de outras pessoas, no que imaginamos ter acontecido, ou pela internalização de representações de uma memória histórica. Maurice Halbwachs La mémoire collective (1950), afirma que a lembrança é sempre uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e que é preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora se manifestou já bem alterada. Embora sejam sempre os indivíduos que lembrem, é o contexto social que determina o que é “memorável” e as formas pelas quais deve ser lembrado. Assim, pode-se dizer que os desfiles da Oktoberfest simulam lembranças expandindo a nossa percepção do passado do nosso contexto social, pois não se refere ao passado vivido, mas ao passado imaginado, ou melhor, desejado. Eis ai o paradoxo dos desfiles da Oktoberfest: querem nos fazer lembrar algo que não vivemos!




quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A SEGUNDA ONDA OU MARINA-PV E AS ELEIÇÕES 2010

O primeiro fenômeno político de interesse sociológico na Eleição de 2010 foi a emergência da chamada Onda Vermelha. Esta primeira onda compreende o apoio a candidatura de Dilma vinda do nordeste em direção ao sul. A onda vermelha provocou uma profunda comoção na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro. Afinal, frequentemente, as tendências se deslocam do centro para periferia, mas o inusitado foi o movimento da periferia para o centro. Este tsunami político provocou dois impactos mais evidentes: 1) representou a inversão das intenções de voto entre Dilma e Serra; 2) sinalizou a perda – momentânea é verdade- da capacidade de influência dos meios tradicionais de comunicação. O desespero gerou uma reação imediata que, por um lado, desencadeou um “denuncismo lacerdista” e, por outro, um inconformismo da classe média. Quem emergiu vencedora deste contexto foi uma Segunda Onda eleitoral representada por Marina-PV vinda da internet. Neste contexto, cabe perguntar: qual o sentido e significado da Segunda Onda para a política brasileira? Para responder esta questão necessitamos situar a Segunda Onda no contexto político e ideológico que caracteriza a emergência da problemática ambiental, e o papel que os partidos verdes vêm desempenhando na esfera política, para em seguida extrair as conseqüências deste processo e entender o que representa a Segunda Onda para o processo Eleitoral de 2010.


1 – O PV e a questão ambiental

A formação dos Partidos Verdes está associada ao surgimento do Movimento Ambientalista Moderno durante a década de sessenta. Neste período dissemina-se junto a opinião pública a percepção dos riscos associados a reprodução do padrão predominante de desenvolvimento socioeconômico. Este padrão desenvolvimento desencadeou duas crises que se encontram interligadas: a) crise ambiental (sobrecarga da capacidade assimilativa da natureza); b) crise ecológica (sobrecarga da capacidade regenerativada da natureza). Assim, progressivamente questões como, por exemplo, a destruição das florestas, a poluição atmosférica, a contaminação da cadeia alimentar, os riscos da energia atômica, etc. tornam-se objeto de debate público e a formação dos Partidos Verde representa, neste período, a estratégia de institucionalização política da problemática ambiental.

Neste contexto sociopolítico os Partidos Verdes em geral, o Die Grünen em particular, reúnem ambientalistas, pacifistas e demais ativistas dos chamados “novos movimentos sociais”. Os Partidos Verdes fundamentam-se naquilo que ficou conhecido como “segunda contradição do capitalismo”. A primeira crise compreenderia uma crise distributiva: a concentração da riqueza em torno a poucas pessoas representaria uma crise social baseada na oposição clássica dos movimentos trabalhista e partidos operários entre capital e trabalho; já a segunda crise representa a crise ambiental: diz respeito não somente aos limites sociais de expansão do capitalismo, mas aos seus limites físicos pois os recursos naturais seriam finitos. Portanto, os Partidos Verdes representam uma crítica a agenda dos partidos tradicionais, mas também a forma tradicional de fazer política. Mais precisamente, os Partidos Verdes representavam uma crítica radical de esquerda a sociedade capitalista, defendendo, portanto, “valores pósmaterialistas”.

Com o passar do tempo a problemática ambiental foi sendo progressivamente incorporada na agenda de todos os partidos e institucionalizada politicamente. Com isso observa-se uma transformação das formas de confrontação da questão ambiental. Transita-se de um “bi-setorialismo conservacionista” centrado na relação sociedade-estado, no qual cabia aos Partidos Verdes o papel de denunciar os riscos da questão ambiental e pressionar o estado para implementação de políticas de confrontação, para um “multisetorialismo sustentabilista” no qual a questão ambiental torna-se objeto de interesse de diversos setores como, por exemplo, o setor empresarial interessado na otimização de custos, setor tecnocientífico visando testar novas técnicas, etc. A conseqüência mais evidente deste processo foi o esvaziamento da agenda política dos Partidos Verdes e, consequentemente, uma perda da radicalidade e deslocamento para o centro, e muitas para a direita afastando-se de questões progressistas como, por exemplo, o antimilitarismo, desobediencia civil, discrinalização das drogas, etc.

2 – As bases sociais do PV no Brasil ou as metamorfoses de Gabeira

No Brasil o debate sobre a problemática ambiental não foi institucionalizado politicamente por meio da criação de um partido político devido ao caráter autoritário do regime político do período. As restrições ambientais eram conflitantes com as estratégias “desenvolvimentistas” patrocinadas pelo Regime Militar e, assim, diferente do que ocorreu nos demais países ocidentais no Brasil a mobilização ambiental ficou confinada a um reduzido conjunto de pequenos grupos da sociedade civil e de pessoas que dentro da estrutura governamental que acreditavam na importância de proteger o meio ambiente. Neste sentido, o debate sobre a problemática ambiental se restringiu aos setores mais esclarecidos da sociedade compostos por pessoas vinculadas ao universo acadêmico, setores profissionais e demais ativistas, como assinala a luta da AGAPAN contra o uso de agrotóxicos. Somente a partir da segunda metade da década de setenta, num contexto marcado pelo processo de abertura política e pela influencia da realização da Primeira Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente é que o debate sobre o meio ambiente dissemina-se no Brasil e passa a entrar na agenda política do estado.

Por isso, quando é fundado o Partido Verde no Brasil em 1986 o movimento ambientalista já encontra-se relativamente de disseminado pela sociedade, o que provoca um processo de profissionalização da atuação ambiental em ONGs de diversos formatos. É por isso que na década de 80 o ambientalismo brasileiro se caracterizada, principalmente, por iniciativas que buscam aprimorar os instrumentos legais de gestão ambiental, e pela a escolha de parcela dos ambientalistas por enveredar pelo campo político institucional e na busca das ONGs ambientalistas em se profissionalizar e de se aproximar das ONGs sociais. O resultado político deste processo foi que o Partido Verde brasileiro nunca consegui se tornar o porta voz legitimo da questão ambiental no Brasil. Isto explica porque dos vinte candidatos ambientalistas que concorreram para a Assembléia Constituinte de 1988 somente um foi eleito, e a Frente Parlamentar Verde ter sido formada predominantemente por deputados do PT e do PSDB, e mesmo assim possibilitando transformar a legislação ambiental brasileira numa das mais avançadas do mundo.

Com o maior interesse da sociedade pela questão ambiental o movimento ambientalista se expande pós Eco92, e penetra em outras áreas e dinâmicas organizacionais estimulando o engajamento de grupos socio-ambientais, científicos, movimentos sociais e empresariais, nos quais o discurso do desenvolvimento sustentado assume papel preponderante, contudo o Partido Verde não consegue capitalizar politicamente esta transformação. Neste sentido, a trajetória de Fernando Gabeira, líder nacional mais conhecido do PV traduz dramaticamente as contradições do PV num país caracterizado por dinâmicas diferenciadas desenvolvimento, e como se falou em outro lugar “por contradições e lutas de diferentes tipos”. Gabeira como todos sabem, é aquele exguerilheiro do MR8 da década de sessenta, que usou a tanga da prima na Leblon na década de oitenta e que agora virou político tradicional que anda de bicicleta em Brasília. Esta trajetória poder ser ilustrada nos primeiros primeiros livros: O que é isso companheiro, Entradas e bandeiras e O crepúsculo do macho, Sinais de vida no planeta minas...até o mais recente Navegando na neblina Este livros retratam passagem de uma oposição revolucionária em partidos de vanguardista, para uma esquerda cultural baseada na libertação psicológica e sexual, incorporando, mais recentemente, um perfil mais conservador, mas também sinalizam as transformações da agenda do PV e suas metamorfoses ideológicas.

3 – O Efeito Marina PV e as Eleições 2010

Neste contexto sociopolítico que se caracteriza, simultaneamente, por uma guinada conservadora dos partidos verdes e pela falta de legitimidade política do PV brasileiro, alguns analistas se apressaram em caracterizar a Segunda Onda como uma espécie de “terceira via”. A Segunda Onda representaria assim, tanto uma alternativa a agenda conservadora do PSDB/DEM de desenvolvimento por meio da liberação dos mercados, quanto a agenda desenvolvimentista de controle do mercado do PT. É por isso que o programa de Marina-PV Juntos pelo Brasil que Queremos pode afirmar “os avanços recentes foram reais, mas insuficientes e geradores de significativos desequilíbrios”. Contudo, nem Marina tem no PV a base política para institucionalizar o ambientalismo, na medida em que o PV nega a forte relação entre degradação ambiental e desigualdade social Brasil, reforçando a necessidade de alianças e interlocuções coletivas com os partidos conservadores; como também as pessoas que votaram em Marina negaram a importância da agenda progressista de Marina.

Para entender este processo necessitamos olhar também a composição social dos eleitores de Marina PV. A Segunda Onda é formada por quatro grupos políticos principais: 1) O primeiro deles pode ser classificado de “ressentidos de esquerda”. Este grupo compreende ex eleitores do PT que se desiludiram com as políticas governamentais por falta de radicalidade; 2) O segundo compreende os “desiludidos de direita” que por vergonha de militar a favor de Serra apoiaram Marina PV por um excesso de radicalidade do Governo Lula; 3) Os “neoconservadores moralistas” de todas as ordens que viram na trajetória impoluta de marina uma fonte de virtude e argumentos necessários para extravasar o moralismo das classes médias ascendentes; 4) os “neoarcaicos” que identificaram-se com Marina pela passagem no ministério e com o PV pela pauta ambiental.

A Segunda Onda é formada, portanto, por uma base política heterogênea e por isso mesmo volátil, que respondeu aos desafios da conjuntura. Os “ressentidos de esquerda” não terão alternativa se não se arrepender; os “desiludidos de direita” retornarão raivosos sem pudor para os braços da direita; os “neoconservadores” sempre poderão encontrar um candidato mais conservador; e os “neoarcaicos” de sempre não são suficientes para sustentarem projetos políticos mais ambiciosos, como mostra as recorrentes trocas de partido de Gabeira. É por isso que os resultados obtidos por Marina-PV, não exprimem nenhum patrimônio pessoal, muito menos do PV. Isto mostra porque apesar da expressiva votação nacional a bancada do PV aumentou somente dois deputados com relação a eleição passada. Portanto, Marina, a ex ministra do Meio Ambiente do Governo Lula, encontra-se num dilema: apoiar Dilma depreda o capital político acumulado nas eleições; apoiar Serra significa trair sua própria história. Por isso pediu uma moratória de quinze dias para decidir quem vai apoiar, muito embora nos bastidores o PV já tenha entrado na danças das cadeiras. O resultado parece evidente, o PV vai acabar rachando e Dilma acabará sendo eleita. Não devemos esquecer que de cada 10 votos de Marina, Dilma precisa somente 1,5, enquanto que Serra necessita de 9 sobre dez.

4 – A Segunda Onda e o Efeito Cacareco

Cacareco foi um rinoceronte que viveu no Zoológico de São Paulo, e que ficou famoso quando foi lançado vereador nas eleições de 1959, recebendo 100 mil votos.


Portanto, o Efeito Cacareco constitui politicamente um voto de protesto, e sinaliza para o sistema político um descontamento. Marina-PV 2010 parecem ter sido resultado do Efeito Cacareco, na medida em que absorveram os votos de protesto, de um eleitorado bombardeado cotidianamente por escândalos, corrupção e descaso. É por isso que não necessitaram formular ou apresentar nenhum tipo de programa viável para chegar no governo. Num contexto político no qual por inicitiva popular se aprova uma Lei como a Ficha Limpa, bastou apenas enaltecer a honestidade, dedicação e o compromisso ambiental de Marina para ocupar o centro e atrair o voto dos ressentidos e dos desiludidos. O risco da Segunda Onda é Marina-PV serem instrumentalizado para que sejam reintroduzidos programas conservadores que representa a candidatura Serra. Com isso, Marina, mas não necessariamente o PV, tende a perder a credibilidade junto a população, porque seu discurso mudará de rumo e de sustentação política. Como diz o velho adágio da ciência política: capital político é mais fácil de adquirir do que preservar. O Efeito Cacareco assombra Marina-PV.